{"id":4748,"date":"2018-09-03T17:47:31","date_gmt":"2018-09-03T20:47:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomerciovc.com.br\/v3\/?p=4748"},"modified":"2020-12-01T20:48:23","modified_gmt":"2020-12-01T23:48:23","slug":"o-fim-de-uma-historia-insinuante-divida-empurra-ex-gigante-do-varejo-no-abismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomerciovc.com.br\/v3\/2018\/09\/03\/o-fim-de-uma-historia-insinuante-divida-empurra-ex-gigante-do-varejo-no-abismo\/","title":{"rendered":"O fim de uma hist\u00f3ria Insinuante: d\u00edvida empurra ex gigante do varejo no abismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rede criada no interior da Bahia enfrenta processo de reestrutura\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a junto com antigo rival<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na Baixa do Sapateiro, esquina com o Largo do Pelourinho, a primeira Insinuante da cidade, fundada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, j\u00e1 n\u00e3o existe mais. O laranja perdeu para o vermelho, o letreiro \u00e9 apenas uma pequena imagem na lateral da loja, alguns produtos est\u00e3o em falta no estoque. Assim aconteceu em todas as sedes da ex-maior rede de eletrodom\u00e9sticos do Nordeste at\u00e9 que, em 2016, ela sumiu.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Agora, a antiga gigante tem a hist\u00f3ria espremida, em Salvador, nas \u00fanicas 24 lojas restantes da Ricardo Eletro, com a qual foi fundida em mar\u00e7o de 2010.\u00a0Mais uma baixa no setor de eletrodom\u00e9sticos, um dos setores em ascens\u00e3o at\u00e9 2014 e em crise desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os funcion\u00e1rios restantes tamb\u00e9m sentem-se espremidos: hoje, na capital baiana, s\u00e3o menos de mil; at\u00e9 2010, somente na capital baiana, o estimado era o dobro. Naquele ano, eram 260 lojas da Insinuante espalhadas pelo Brasil. Quatro anos depois, quando a Ricardo Eletro e a Insinuante j\u00e1 atuavam em conjunto, a quantidade da Insinuante\u00a0havia ca\u00eddo para 231, com 37 apenas em Salvador, e os letreiros da Insinuante come\u00e7avam a ser juntados com os da Ricardo Eletro. Mas nada que assustasse os vendedores.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No final de agosto, sexta-feira (24), a hist\u00f3ria da Insinuante e seus antigos funcion\u00e1rios, em parte incorporados \u00e0 Ricardo Eletro, parece ter sido novamente reconfigurada. A M\u00e1quina de Vendas, fus\u00e3o do neg\u00f3cio com a empresa mineira e a outras tr\u00eas lojas, iniciou processo de recupera\u00e7\u00e3o extrajudicial para renegociar a d\u00edvida de R$ 3 bilh\u00f5es &#8211; metade com fornecedores. O dono da antiga Insinuante, Luiz Carlos Batista, ficar\u00e1 com apenas 12% do capital, enquanto a gestora Starboard,\u00a0companhia que compra participa\u00e7\u00e3o em empresas, ter\u00e1 72,5% de todo o lucro futuro, segundo acordo confirmado pela Ricardo Eletro ao CORREIO.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A a\u00e7\u00e3o iniciada pela M\u00e1quina de Vendas, explica o advogado Diego Montenegro, \u00e9 um mecanismo utilizado justamente para as empresas negociarem sem restri\u00e7\u00f5es legais os seus d\u00e9bitos. Como uma primeira tentativa antes de arriscar na Recupera\u00e7\u00e3o Judicial, quando as corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o praticamente reestruturadas, ou na Fal\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Antes, seis credores j\u00e1 haviam pedido\u00a0na Justi\u00e7a\u00a0fal\u00eancia contra a Ricardo Eletro. O pedido n\u00e3o ter sido aceito \u00e9 um al\u00edvio para os empregados e os representantes sindicais em Salvador. Afinal, decretar fal\u00eancia seria o in\u00edcio da espera por mais demiss\u00f5es em massa. E, quem sabe, o in\u00edcio de problemas com pagamentos de direitos trabalhistas at\u00e9 ent\u00e3o inexistentes, segundo o diretor de forma\u00e7\u00e3o sindical do Sindicato dos Comerci\u00e1rios de Salvador, Walter C\u00e2ndido.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O grande problema tem sido outro: o pagamento de mais de mil funcion\u00e1rios da Insinuante e da Ricardo Eletro que dizem n\u00e3o ter recebido por alimenta\u00e7\u00e3o, de 2010 a 2013. No dia 22 de agosto, a 28\u00aa Vara do Trabalho de Salvador determinou o pagamento revisto e reajustado aos colaboradores e ex-colaboradores.\u00a0Os valores a serem pagos variam por dia trabalhado, mas o pagamento di\u00e1rio \u00e9 de, em m\u00e9dia, R$ 8,40.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Outra briga tamb\u00e9m chega aos tribunais. Do ano em que foi extinta, em 2016, at\u00e9 o momento, a Insinuante foi alvo de 331 processos no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), na Bahia. Segundo c\u00e1lculo do TRT solicitado pela reportagem, a empresa \u00e9 alvo de 524 a\u00e7\u00f5es trabalhistas \u2013 seja por pagamento de algum direito trabalhista at\u00e9 algum pedido por dano moral. Em outros estados, como no Maranh\u00e3o, Pernambuco e no Cear\u00e1, onde a Insinuante funcionou, foram 55, 96 e 25 a\u00e7\u00f5es\u00a0abertas, respectivamente.\u00a0Extinta ou n\u00e3o, a M\u00e1quina de Vendas precisar\u00e1 responder por todas as 700 queixas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Casamento falido<\/strong><br \/>\nA Insinuante chega a Salvador na d\u00e9cada de 80, j\u00e1 sob comando do filho do idealizador de todo neg\u00f3cio Antenor Batista. O ent\u00e3o jovem Luiz Carlos Batista, na capital para estudar Administra\u00e7\u00e3o abre a filial da Insinuante, criada em 1959, em Vit\u00f3ria da Conquista, justamente na Baixa do Sapateiro, \u00e0 \u00e9poca um dos principais polos comerciais de Salvador. Foi quest\u00e3o de tempo para que os soteropolitanos, principalmente das classes mais baixas, fossem \u00e0 Insinuante t\u00e3o logo precisavam de algum eletrodom\u00e9stico.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os pre\u00e7os baixos e a pol\u00edtica de neg\u00f3cios com os clientes projetam a marca rapidamente para outras cidades e estados. Reinou soberana por anos e, at\u00e9 2004, precisou enfrentar apenas a concorr\u00eancia da paraibana Lojas Maia, adquirida pela Magazine Luiza em 2010. Das 22\u00a0edi\u00e7\u00f5es do pr\u00eamio Top of Mind, a Insinuante ganhou 18 vezes consecutivas, de 1998 a 2015,\u00a0no segmento Loja de Eletr\u00f4nicos e Eletrodom\u00e9sticos. A partir de ent\u00e3o, a Ricardo Eletro assumiu o posto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00c9 em 2004 que o cen\u00e1rio come\u00e7a a mudar para a marca conquistense. A Ricardo Eletro, do mineiro Ricardo Nunes, chega para fazer frente ao neg\u00f3cio local. E come\u00e7a com uma pol\u00edtica agressiva de propaganda e pre\u00e7o.\u00a0A Insinuante apela para a afetividade do baiano, convoca a mem\u00f3ria dos anos passados; a ent\u00e3o novata parte para o neg\u00f3cio direto com o consumidor.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Tamanha era a concorr\u00eancia que, em mar\u00e7o de 2010, uma not\u00edcia surpreende a todos: a partir dali, Insinuante e Ricardo Eletro estavam juntas na fus\u00e3o chamada M\u00e1quina de Vendas. A expectativa dos donos era, at\u00e9 2014, dobrar o faturamento de R$ 5,2 bilh\u00f5es e o n\u00famero de lojas \u2013 528 por 200 cidades. N\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O setor de atua\u00e7\u00e3o come\u00e7a a decair, as d\u00edvidas multiplicam-se. A Insinuante parece come\u00e7ar a desaparecer. At\u00e9 as principais lojas, da Estrada do Coco e a Mega Store da Paralela, s\u00e3o fechadas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os primeiros sinais do desaparecimento s\u00e3o os pr\u00f3prios fechamentos de lojas da Insinuante. Os slogans, antigos rivais, s\u00e3o colocados juntos numa mesma loja; os funcion\u00e1rios dividem-se entre a farda da Insinuante e da Ricardo Eletro. Em fevereiro de 2016, a marca baiana perde a briga invis\u00edvel e deixa de existir. O advogado Diego Montenegro explica que a decis\u00e3o de extinguir uma marca, depois da fus\u00e3o, \u00e9 extrajudicial e cabe aos envolvidos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A d\u00favida \u00e9: por que Luiz Carlos Batista aceitou abrir m\u00e3o do imp\u00e9rio familiar? As opini\u00f5es divergem e ele pr\u00f3prio n\u00e3o respondeu \u00e0s liga\u00e7\u00f5es da reportagem durante a semana. Uma fonte pr\u00f3xima a Luiz Carlos, sob anonimato, afirmou que n\u00e3o havia outra possibilidade:<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Fechando as portas<\/strong><br \/>\nQuando a marca da Insinuante \u00e9 extinta, o setor eletrodom\u00e9stico tamb\u00e9m passa por uma crise expressiva na Bahia. Um ano antes do antigo imp\u00e9rio conquistense ter o nome praticamente eliminado das ruas, o segmento j\u00e1 amargava uma queda de quase 15% (14,5%); no ano de 2016, o decr\u00e9scimo chegou aos 18%, segundo a Superintend\u00eancia de Estudos Econ\u00f4micos (SEI). Queda dupla para a economia baiana e associada a fatores como o desemprego e a elevada taxa de juros por especialistas como Gustavo Pessoti, diretor de indicadores e estat\u00edsticas da SEI e professor de Economia.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\">\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Sem dinheiro, evidentemente, as fam\u00edlias deixaram de comprar tantos eletrodom\u00e9sticos quanto antes. E, o setor que chegava a crescer 40% mensalmente, tamb\u00e9m de acordo com a superintend\u00eancia, despencou. N\u00fameros da Junta Comercial do Estado (Juceb) solicitados pelo CORREIO tamb\u00e9m ajudam a ilustrar o clima de queda.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em 2010, um dos momentos de maior crescimento na venda de eletrodom\u00e9sticos, foram abertas 222 empresas do setor e somente sete fecharam as portas. De 2017 ao dia 31 de julho, j\u00e1 no aprofundamento da crise, das 123 lojas abertas, 44 n\u00e3o resistiram ao mercado (quase 36% das novatas). Em 2017, at\u00e9 ocorre uma pequena retomada de 3,4%, novamente de acordo com a SEI, mas n\u00e3o o suficiente para reerguer o segmento. Para a pasta, o comportamento est\u00e1 ligado \u00e0s redu\u00e7\u00f5es da infla\u00e7\u00e3o e da taxa de juros.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O pr\u00f3prio fechamento da Insinuante repercutiu na conjuntura baiana, acredita Luiz Jos\u00e9 Pimenta, doutor em desenvolvimento regional e urbano e conselheiro do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon). Ele justifica:<\/p>\n<p class=\"bodytext\">H\u00e1 tamb\u00e9m outra justificativa levantada por economistas. A internet parece ter se tornado uma atrativa para o fechamento de lojas do setor. \u00c9 o que mostra uma pesquisa de 2017, do Conselho Federal de Economia: a compra de geladeiras e fog\u00f5es, por exemplo, foi realizada 43% das vezes por meio de sites.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Mas a perda maior, no caso da Insinuante, parece ser simb\u00f3lica. \u00c9 o que acreditam tamb\u00e9m os ex-clientes da marca. \u201cEu lembro de sempre olhar na Insinuante antes de decidir. A \u00faltima coisa que comprei l\u00e1, h\u00e1 uns tr\u00eas anos, foi uma cama. Acho que custou R$ 500, nos outros lugares eram uns R$ 650, por a\u00ed\u201d, lembra a vendedora M\u00e1rcia Lima, 35. A substitui\u00e7\u00e3o ou ocorre pela internet ou por passeios nas ruas. &#8220;Eu s\u00f3 decido pesquisando mesmo, indo nos lugares. Acho que deve ser de gera\u00e7\u00e3o&#8221;, acredita a professora Marlene, 76.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A crise sem volta da Insinuante \u00e9 tamb\u00e9m sempre ligada a outras perdas da economia baiana, como a Farm\u00e1cia Sant\u2019Ana, cuja \u00faltima loja foi fechada em 2018. De frente para a primeira loja da rede em Salvador, uma senhora percebe a reportagem, olha para o slogan da loja e comenta: \u201cAcabou mais uma, n\u00e9? Crise braba, minha filha\u201d. Os s\u00edmbolos da Insinuante s\u00e3o apenas vest\u00edgios do passado. A Bahia j\u00e1 perdeu mais uma de suas for\u00e7as. (Fernanda Lima &#8211; Correio 24 horas)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rede criada no interior da Bahia enfrenta processo de reestrutura\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a junto com antigo rival Na Baixa do Sapateiro, esquina com o Largo do Pelourinho, a primeira Insinuante da cidade, fundada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, j\u00e1 n\u00e3o existe mais. 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