Dalci Meira de Andrade, primeira mulher eleita ‘Comerciante do Ano’ na Bahia

Quando menina, Dalci Maria de Andrade gostava de observar seu pai, que tinha um pensionato e uma vendinha de “secos e molhados”, trabalhando. Desta maneira, quase por osmose, desenvolveu o amor pelo labor, dinheiro e, principalmente, empreendedorismo.

Hoje, aos 75 anos, a empresária possui 18 lojas da O Boticário em quatro cidades e, na noite desta quarta-feira (28), se tornou a primeira mulher a receber o prêmio de ‘Comerciante do Ano’, concedido anualmente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-BA).

“Me senti uma plebeia casando com um príncipe”, revelou ela, incrédula, sobre o sentimento que teve ao saber que se tornaria pioneira na premiação após 33 edições vencidas, unicamente, por homens.

A analogia usada por ela para expor sua emoção faz sentido pois, tal qual uma Cinderela, ela sempre trabalhou – e muito – buscando apenas o seu sustento e não à procura de um “sapatinho de cristal”.

Já a varinha de condão começou a ser sacodida há mais de 40 anos. Era maio de 1977, quando, enquanto visitava dois filhos que estudavam em Curitiba (PR), descobriu uma lojinha chamada O Boticário. E, onde muitos viam apenas um pequeno estabelecimento regional, Dalci enxergou uma grande oportunidade.

Início
Primeiro começou a comprar produtos de lá para vender em uma loja de estética que tinha em Vitória da Conquista, Sudoeste do estado, onde morava na época. Logo depois, quando soube que a empresa abriria franquias, imediatamente se candidatou para abrir a sua lojinha aqui na Bahia.

“Na época, eu nem sabia o que era franquia, mas me joguei mesmo assim. Só queria uma oportunidade para trabalhar”, contou ela ao CORREIO.

Trabalho, aliás, sempre foi uma espécie de mantra em sua vida. Desde pequena, nunca quis ser sustentada por ninguém, seja pai ou marido. E foi assim que a mulher que sempre se recusou a receber mesada virou a mesa da sua trajetória.

Na véspera de Natal de 1981, ela montou na Galeria Itambiá, em Conquista, uma das primeiras lojas O Boticário do Norte-Nordeste.

Apoio
Mas Dalci não construiu a trajetória sozinha. Nascida em 1944, num período em que o machismo predominava, ela teve a sorte de encontrar um marido que a apoiava incondicionalmente.

“Hoje eu percebo o quanto meu esposo era à frente de seu tempo, sempre me incentivando. Até ‘deixava’ eu viajar sozinha para fazer cursos, algo impensável para a época. A família dele o julgava por conta da maneira que ele me tratava. ‘Eu conheço a minha mulher’, sempre dizia ele, quando era importunado”, lembra Dalci.

Grata por todo o apoio que recebeu, hoje a empresária procura dar os mesmos incentivos, abrindo portas para outras mulheres que têm o mesmo sonho que ela tinha quando jovem.

Líder 
Hoje, Dalci lidera uma equipe de mais de três mil revendedores, dos quais apenas 2% são homens, e sempre dá conselhos a quem pede.

“Tem, por exemplo, uma mulher que foi minha pupila. Eu a peguei pelo braço, ensinei e até assinei uma carta para ajudá-la a abrir uma franquia no interior do Paraná. Recentemente, ela ganhou um prêmio e me disse: ‘tudo que ganhei, devo a você’”, recorda ela, admitindo ficar comovida com o reconhecimento.

“Eu acho ótimo isso. Esse prêmio mesmo, é um absurdo eu ser a primeira mulher a ganhar. Pelo menos agora eles abriram os olhos e estão fazendo a coisa certa. Tem muitas de nós, extremamente competentes, que merecem ser agraciadas”, defende.

A receita do sucesso ensinada por ela? Trabalho. É isso que ela faz desde os 17 anos, quando já estava casada e teve seu primeiro filho. Em jornada dupla, saía de casa durante o dia e, à noite, criava seus cinco filhos, além de cuidar da casa.

O neto Guilherme, orgulhoso, confirma: “Ela faz isso até hoje. Quando chega em casa e o local não está limpo da maneira que ela quer, ela pega o pano, vassoura e aspirador e começa, mete a mão na massa”.

“Mas tem que fazer isso mesmo”, retruca Dalci. “Meu filho, eu trabalhei muito mesmo a vida toda. Lixava a prateleira das lojas, lavava as calçadas. Se não estou satisfeita com algo, faço por conta própria. Quero todas as minhas lojas impecáveis”, explica.

E, mesmo aos 75 anos, ela segue de olho em todos os seus 18 estabelecimentos nas cidades de Vitória da Conquista, Iguaí, Barra do Choça e Condeúba. “E pretendo abrir mais”, adianta.

Mas quem pensa que o orgulho da vida de Dalci é o pequeno império que construiu no Sudoeste baiano está equivocado. “Meu maior amor são meus filhos e netos lindos, perfeitos e maravilhosos. O comércio e o dinheiro é bom. Mas a família vem em primeiro lugar”, conclui.

Comerciante do Ano
Desde 1985, anualmente, a Fecomércio-BA premia um comerciante. Os 35 sindicatos que formam o órgão indicam nomes, que são avaliados por critérios como empreendedorismo e atuação no terceiro setor e, a partir daí, é escolhido o vencedor.

Além da premiação, Dalci recebeu a medalha Visconde de Cairú, baiano considerado o patrono do comércio brasileiro. (Correio da Bahia, com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro – Foto: Betto Jr./Correio))